20 janeiro 2008

Noel de Medeiros Rosa - (1910 - 1937)




Um dos maiores e mais importantes artistas da música no Brasil, foi responsável pela união do samba do morro com o do asfalto.
Sambista, cantor, compositor, bandolinista, violonista brasileiro.
Depois de casar-se, em 1934, começou uma batalha contra a tuberculose. Apesar disso, nunca deixou de viver na boemia. Viajava para cidades mais altas, onde o ar era mais puro.
Durante sua estadia em BH, escreveu ao seu médico:


"Já apresento melhoras,
Pois levanto muito cedo
E deitar às nove horas
Para mim é um brinquedo.
A injeção me tortura
E muito medo me mete,
Mas minha temperatura
Não passa de trinta e sete!
Creio que fiz muito mal
Em desprezar o cigarro
Pois não há material
Para o exame de escarro! "


De volta ao Rio, jurou estar curado. Faleceu em sua casa, no ano de 37.

17 janeiro 2008

Pela décima vez

"Jurei não mais amar pela décima vez
Jurei não perdoar o que ela me fez

O costume é a força que fala mais forte do que a natureza
E nos faz dar provas de fraqueza
Joguei meu cigarro no chão e pisei
Sem mais nenhum aquele mesmo apanhei e fumei
Através da fumaça neguei minha raça chorando, a repetir:
Ela é o veneno que eu escolhi pra morrer sem sentir

Senti que o meu coração quis parar
Quando voltei e escutei a vizinhança falar
Que ela só de pirraça seguiu com um praça ficando lá no xadrez
Pela décima vez ela está inocente nem sabe o que fez".

Noite em claro

Deixem-me fugir
para a realidade
Que eu cansei de sonhar,
apenas.

Me deixem,
os imploro!
Andar na chuva
esconder-me do sol
por um dia que seja.

Descansar do marasmo,
palpitar meu coração,
solitário
e tão cheio de vida.

Me deixem,
por favor,
só por um dia.

versos...

"Adeus é bem triste, que não se resiste
Ninguém jamais com adeus, pode viver em paz".

Adeus


"O amor é como a chama, tem princípio, meio e fim
Se você já não me ama, para que fingir assim?
Não mandei você embora porque sou benevolente

Para que você agora quer sair ocultamente"

"Se não mandei você embora, enfim, foi porque me faltou acoragem

Mas se você vai dar o fora, então, passe bem, boa viagem!"

Boa viagem


"Amar sem ter amor é um suplício
Você não compreende a minha dor

Nem pode avaliar
O sacrifício que eu fiz
Para você ser feliz!"

Cansei de Pedir

"Coração
Não és sentimental

Mas entretanto dizem
Que és o cofre da paixão
Coração
Não estás do lado esquerdo

Nem tampouco do direito
Ficas no centro do peito - eis a verdade!"

Coração


"Jura, jura de coração
Para que um dia

Eu possa dar-te o meu amor
Sem mais pensar na ilusão
Daí então dar-te eu irei
Um beijo puro na catedral do amor
Dos sonhos meus,

Bem juntos aos teu
Para fugir das aflições da dor"

Jura


"Porque te esquivas, assim, coração
De uma paixão?

O teu olhar traz alegria
Mas também traz o amargor,

Sem ele, então, não viveria
Vida não há sem dor".

Meu sofrer (Queixumes)

"Pra que mentir se tu ainda não tens
Esse dom de saber iludir?
Pra quê?! Pra que mentir
Se não há necessidade de me trair?
Pra que mentir, se tu ainda não tens

A malícia de toda mulher?
Pra que mentir se eu sei que gostas de outro
Que te diz que não te quer?


Pra que mentir
Tanto assim
Se tu sabes que eu já sei
Que tu não gostas de mim?!
Se tu sabes que eu te quero

Apesar de ser traído
Pelo teu ódio sincero
Ou por teu amor fingido?!".

Pra Quê Mentir?

"Provei
Do amor todo amargor que ele tem
Então jurei
Nunca mais amar ninguém
Porém, eu agora encontrei alguém
Que me compreende

E que me quer bem

Nunca se deve jurar
Não mais amar a ninguém

Não há quem possa evitar
De se apaixonar por alguém


Quem fala mal do amor
Não sabe a vida levar

Pois quem maldiz a própria dor
Tem amor mas não sabe amar".

Provei

"Quantos beijos
Quando eu saía
Meu deus, quanta hipocrisia!

Meu amor fiel você traía
Só eu é quem não sabia
Ai ai meu deus mas quantos beijos..."

Quantos beijos

"Felicidade, felicidade

Minha amizade foi-se embora com você
Se ela vier e te trouxer

Que bom, felicidade que vai ser

Trago no peito o sinal de uma saudade

Cicatriz dessa amizade
Que com o tempo vi morrer
Eu fico triste

Quando vejo alguém contente
Tenho inveja dessa gente
Que não sabe o que é sofrer".

Que Bom, Felicidade Que Vai Ser

"Você é um tipo que não tem tipo
Com todo tipo você se parece
E sendo um tipo que assimila tanto tipo

Passou a ser um tipo que ninguém esquece
O tipo zero não tem tipo"

Tipo Zero

"Se tocar então
"A nossa canção"...
Depois de três taças
Depois das seis horas
Três palavras falsas sem inspiração

Qualquer um me encanta
Tudo sai de graça

Qualquer um se torna minha grande paixão
Minhas orações não são pra mais ninguém
Se tocar então

"A nossa canção"".

Três Apitos

04 janeiro 2008

Pela primeira vez


"Pela primeira vez na vida
Sou obrigado a confessar que amo alguém.
Chorei quando ela deu a despedida
Ela me vendo a chorar chorou também.
Meu Deus, faça de mim o que quiser,

Mas não me faça perder
O amor desta mulher.

Na estação, na hora de partir o trem,
Ela me vendo a chorar chorou também.
Depois fiquei olhando a janela,
Até sumir numa curva o lenço dela.


Se meu amor não regressar, irei também
À estação na hora de partir o trem.
E nunca mais assisto uma partida
Pra não lembrar mais daquela despedida".

11 dezembro 2007

Antônio Frederico de Castro Alves (1847 - 1871)





















"Morrer — é ver extinto dentre as névoas
O fanal, que nos guia na tormenta:
Condenado — escutar dobres de sino,
— Voz da morte, que a morte lhe lamenta

—Ai! morrer — é trocar astros por círios,
Leito macio por esquife imundo,
Trocar os beijos da mulher — no visco

Da larva errante no sepulcro fundo.


Ver tudo findo... só na lousa um nome,
Que o viandante a perpassar consome.

(...)

Adeus! arrasta-me uma voz sombria
Já me foge a razão na noite fria! ..."

Mocidade e Morte


"Quando eu morrer... não lancem meu cadáver
No fosso de um sombrio cemitério...
Odeio o mausoléu que espera o morto

Como o viajante desse hotel funéreo".

Quando eu morrer
São Paulo, março de 1869

03 dezembro 2007

O Navio Negreiro

" 'Stamos em pleno mar... Dois infinitos
Ali se estreitam num abraço insano
Azuis, dourados, plácidos, sublimes...
Qual dos dois é o céu? Qual o oceano?...

Esperai! Esperai! deixai que eu beba
Esta selvagem, livre poesia...
Orquestra — é o mar que ruge pela proa,
E o vento que nas cordas assobia...

2a.

Que importa do nauta o berço,
Donde é filho, qual seu lar?...
Ama a cadência do verso
Que lhe ensina o velho mar!

Cantai! que a noite é divina!
(...)

4a.

E ri-se a orquestra, irônica, estridente...
E da ronda fantástica a serpente
Faz doudas espirais...
Se o velho arqueja... se no chão resvala,
Ouvem-se gritos... o chicote estala.
E voam mais e mais...


5a.

Senhor Deus dos desgraçados!
Dizei-me vós, Senhor Deus!
Se é loucura... se é verdade
Tanto horror perante os céus...

Ó mar! por que não apagas
Co'a esponja de tuas vagas
De teu manto este borrão?...

Astros! noite! tempestades!
Rolai das imensidades!
Varrei os mares, tufão!...

6a.

E existe um povo que a bandeira empresta
P'ra cobrir tanta infâmia e cobardia!...
E deixa-a transformar-se nessa festa

Em manto impuro de bacante fria!...
Meu Deus! meu Deus! mas que bandeira é esta,

Que impudente na gávea tripudia?!...
Silêncio!... Musa! chora, chora tanto
Que o pavilhão se lave no teu pranto... "


(...)

versos

"Deus do infeliz, do mísero!
Consolação do aflito!
Descanso do precito,
Que sonha a vida em ti!
Quando a cidade tétrica
De angústia e dor não geme...
É tua mão que espreme
A dormideira ali".

Hino ao sono - São Paulo, 12 de julho de 1868

"Tenho saudades de meus dias idos
— Pét'las perdidas em fatal paul —
Pét'las, que outrora desfolhamos juntos,
Morenas filhas do país do sul!"

Versos de um viajante - Em caminho, Fevereiro de 1870

"Boa noite, Maria! Eu vou-me embora.
A lua nas janelas bate em cheio.
Boa-noite, Maria! É tarde... é tarde...
Não me apertes assim contra teu seio".

Boa noite

"Era uma tarde triste, mas límpida e suave...
Eu — pálido poeta — seguia triste e grave
A estrada, que conduz ao campo solitário,
Como um filho, que volta ao paternal sacrário,"
(...)

A Boa Vista - Boa Vista, 18 de novembro de 1867

"Morrer de frio quando o peito é brasa...
Quando a paixão no coração se aninha!?...
Vós todos, todos, que dormis em casa,
Dizei se há dor, que se compare à minha!...

(...)

E tu fugiste, pressentindo o inverno.
Mensal inverno do viver boêmio...
Sem te lembrar que por um riso terno
Mesmo eu tomara a primavera a prêmio...

(...)

Batem!... que vejo! Ei-la afinal comigo...
Foram-se as trevas... fabricou-se a luz...
Nini! pequei... dá me exemplar castigo!
Sejam teus braços... do martírio a cruz!... "

Canção do Boêmio - São Paulo, junho de 1868

"Noite, eu me lembro... Ela dormia
Numa rede encostada molemente...
Quase aberto o roupão... solto o cabelo
E o pé descalço do tapete rente.

'Stava aberta a janela. Um cheiro agreste
Exalavam as silvas da campina...
E ao longe, num pedaço do horizonte,
Via-se a noite plácida e divina.

(...)

Eu, fitando esta cena, repetia
Naquela noite lânguida e sentida:
"Ó flor! - tu és a virgem das campinas!
"Virgem! - tu és a flor da minha vida!..." ".

Adormecida

"Onde vais, estrangeiro! Por que deixas
O solitário albergue do deserto?
O que buscas além dos horizontes?
Por que transpor o píncaro dos montes,
Quando podes achar o amor tão perto? ...

(...)

No entanto Ele partiu!... Seu vulto ao longe
Escondeu-se onde a vista não alcança......
Mas não penseis que o triste forasteiro
Foi procurar nos lares do estrangeiro
O fantasma sequer de uma esperança! ...

O Hóspede

02 dezembro 2007

Fuga

Amanheci,
pois a noite tardou
em acabar.

Adormeci em teus braços
para vingar
àquela paixão que sinto
pelo outro.
Em vão.

Fingi te amar
loucamente
em cada suspiro
cada olhar.
Anoiteci,
mas era tarde
e o sol tornou a brilhar.

01 dezembro 2007

O gondoleiro do amor


"Teus olhos são negros, negros,
Como as noites sem luar...
São ardentes, são profundos,
Como o negrume do mar;

Sobre o barco dos amores,

Da vida boiando à flor,
Douram teus olhos a fronte
Do Gondoleiro do amor.

Tua voz é cavatina
Dos palácios de Sorrento,
Quando a praia beija a vaga,
Quando a vaga beija o vento.

E como em noites de Itália

Ama um canto o pescador,

Bebe a harmonia em teus cantos
O Gondoleiro do amor.

Teu sorriso é uma aurora
Que o horizonte enrubesceu,

— Rosa aberta com o biquinho

Das aves rubras do céu;

Nas tempestades da vida
Das rajadas no furor,
Foi-se a noite, tem auroras
O Gondoleiro do amor.

Teu seio é vaga dourada

Ao tíbio clarão da lua,

Que, ao murmúrio das volúpias,

Arqueja, palpita nua:

Como é doce, em pensamento,
Do teu colo no languor
Vogar, naufragar, perder-se

O Gondoleiro do amor!?


Teu amor na treva é — um astro,

No silêncio uma canção,

É brisa — nas calmarias,
É abrigo — no tufão;


Por isso eu te amo, querida,
Quer no prazer, quer na dor...
Rosa! Canto! Sombra! Estrela!
Do Gondoleiro do amor".